Archive for Novembro, 2018

A retirada

Novembro 26, 2018

Frota portuguesa 1807

Em termos estratégicos a retirada pode ser uma opção para depois se retomar a posição inicial e tal aconteceu quando o Príncipe Regente Dom João em 26 de Novembro de 1807 deu ordem de embarque nos 24 navios de guerra e nos 31 navios mercantes para Família Real, os membros do Conselho de Estado e do Governo, magistrados, diversos funcionários, oficiais militares e fuzileiros, artistas, artesãos, operários, etc., num total de cerca de 15.000 pessoas com destino ao Brasil. Os navios zarparam dois dias depois. Decisão de Estado que salvou a independência de Portugal, ameaçada por Napoleão que no Tratado de Fontainebleau condenava ao aprisionamento da Família Real portuguesa e o território de Portugal repartido pela França e Espanha.

 

Foi a estratégia exacta para preservar a Reino de Portugal e todos os territórios ultramarinos.

A ideia da transferência da Família Real para o Brasil não era nova e foi esse o conselho que foi dado a Dom António Prior do Crato – efémero Rei de Portugal – quando Filipe II de Espanha resolveu assumir-se como herdeiro da Coroa Portuguesa (1580).

Também esteve previsto acontecer, se tem sido necessário, o embarque de Dom João IV e Família para o Brasil durante o período da Guerra da Restauração (1640-1668), havendo planos para o efeito.

A Dom João V (1689-1750) também lhe foi sugerida a ideia da Família Real se deslocar para o Brasil, porque aquele território estava a ser cobiçado por ingleses e holandeses.

Também o Marquês de Pombal admitiu a transferência da Corte para o Brasil durante a conjuntura da Guerra dos 7 anos (1756-1963), que foi o primeiro conflito de carácter mundial.

Em 11 de Novembro de 1807 o jornal francês “Le Moniteur” publicou a notícia que Napoleão tinha decretado “que a Casa de Bragança tinha cessado de reinar em Portugal” e que estava em marcha uma invasão.

Perante as forças francesas (25.000 homens) e espanholas (30.000 homens) comandadas pelo general Jean-Andoche Junot, Portugal não teria hipótese de defender a Família Real e iria perder também a frota da Marinha de Guerra e Mercante.

 

Chegado ao Rio de Janeiro, o Príncipe cria a Ordem de Torre e Espada, no sentido de agraciar os portugueses e estrangeiros que auxiliaram e permitiram a transferência da capital do Reino para o Rio de Janeiro.

Em 16 de Dezembro de 1815 promove a elevação do Estado do Brasil e Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, mantendo a capital no Rio de Janeiro, o português como língua oficial, o catolicismo como religião, o “real” como moeda, a bandeira com as armas próprias do símbolo dessa união, e o hino oficial.

Em 6 de Fevereiro de 1818, pela primeira vez em toda a América era aclamado um Rei: Dom João VI.

Na América uma Família Real!

E tocou o Hino. O “Hynmo Patriótico”

Brasão de Armas do Reino Unido Portugal, Brasil e Algarves.

 

No final, depois de Napoleão abdicar derrotado, o Rei Dom João VI foi o único soberano europeu que resistiu às ordens de França e sobreviveu no trono em 1815.

 

Hynmo Patriótico

As estrelas da comida

Novembro 25, 2018

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De repente e em catadupa uma série de notícias sobre as estrelas Michelin querendo mostrar aos portugueses o que eles conhecem muito bem sobre as suas tradições e cultura culinária, mas apresentadas segundo um conceito diferente e que não nos diz nada: no prato uma azeitona, duas vagens de feijão verde, um niquinho de carne, meia batata cozida, dois riscos de qualquer coisa a fingir um molho e o empregado dizendo, em voz quase sumida como se estivesse num convento de frades descalços, que o raminho de hortelã, empinado em cima da carninha, tinha vindo de avião dos campos da Bretanha. Lindo!

Tudo isto começou quando André Michelin, no começo do século XX, resolveu fazer um guia dos bons restaurantes e que esse fosse o motivo para por os proprietários dos poucos carros em viagens gastronómicas e com o consequente rodar dos pneus. Não se sabe – ou eu não sei – se Michelin era “um bom garfo” mas já nesse tempo conseguiu uma movimentação de automóveis em crescendo de visitas aos restaurantes e consequentemente voltas e reviravoltas dos pneus e que durou todos estes anos. Mais de um século.

Depois o marketing foi fazendo o resto até hoje e as classificações afrancesadas foram dizendo aos utilizadores quais os restaurantes indicados depois de enormes segredos nas visitas secretas de misteriosos inspectores, treinados para análises anónimas.

Depois disto tudo, há os que acreditam e os que não acreditam.

Faço parte dos segundos e em vez dos sofisticados pratos decorados à mão, prefiro um bacalhau à lagareiro, um ensopado de borrego ou uns pezinhos de porco de coentrada, sem as tais estrelas, mas com um belo tinto das encostas de Pias. Depois e antes do café, talvez uma encharcada de Santa Clara, uns queijinhos de hóstia ou umas barriguinhas de freira. Se no final tomar uma bela aguardente da Vidigueira, preparada pelo meu colega e amigo de sempre José do Rosário Maltez, é como se estivesse a caminho do Além, em viagem para o Céu…mas sem as tais estrelas do senhor Michelin que quer explicar de lá o que já sabemos por cá há imenso tempo.

Manuel Peralta Godinho e Cunha

Um mundo cão

Novembro 13, 2018

Deficientes

No último programa da RTP intitulado “Prós e Contras” e sob o tema “Vidas Suspensas” onde foram abordados problemas concretos de cuidadores informais que tratam e acompanham diariamente pessoas com deficiência e que não têm apoio do Estado.

No programa a ausência de qualquer responsável do Governo da República foi total, não obstante de lhes terem sido enviado convites.

Estranho país é este onde a tentativa de humanização dos cães e gatos parece ser mais importante do que das pessoas desfavorecidas.

Como é que os deputados se entretêm a conversar e engendrar leis para retirar os animais do circo; substituir o canil pelo conceito de parque de bem-estar onde os animais possam circular livremente; permissão da entrada dos cães nos restaurantes; abolir os cavalos nas charretes, exterminar as touradas, etc., e não auxiliam quem optou por cuidar dos seus familiares deixando de ter um emprego? Quanto custaria este serviço se fosse feito pelo Estado?

Neste programa da RTP1 coordenado por Fátima Campos Ferreira nenhum responsável pelo Governo aceitou o convite para estar presente. Desprezo total por milhares de situações bem difíceis e muito mais importantes do que as preocupações parlamentares do mundo do cão.

Manuel Peralta Godinho e Cunha

Na praça de toiros

Novembro 10, 2018

Vitor Ribeiro 19.05.2018

Na praça de toiros

A Festa Brava é um misto de arte, movimento, cor, angustia, alegria…tudo isso num equilíbrio fugaz de vida e morte.

Tem rituais, tem dignidade. Tem regras e honra. Tem o toiro, que é a essência da Festa. Tem garbosos cavalos. Tem a música e o silêncio do perigo. Tem o sol e a sombra.

Tem toureiros, forcados e campinos que se vestiram a rigor sabendo que pode ter sido pela última vez.

Tem o sorriso de mulher, as flores, os aplausos.

Tem a sensibilidade dos que dela querem participar e entender. É cultura.

Manuel Peralta Godinho e Cunha

 

 

–Na foto o cavaleiro Vitor Ribeiro na Arena d’Évora em 19.05.2018

A falta de cultura da Ministra

Novembro 1, 2018

Henrique Monteiro

Li com atenção o artigo intitulado “Touradas e Civilização”, publicado no Expresso em 31 de Outubro de 2018 e gostei do texto.

Henrique Monteiro não sendo aficionado tem opinião e nota-se que conhece o assunto, ao contrário de muitos animalistas que dizem que não gostam das touradas mas nunca viram nenhuma e escrevem sobre o que não sabem. Assim, Henrique Monteiro diz que viu só uma tourada mas nem por isso se sentiu atraído, razão porque não entrou mais numa Praça de Toiros para esse efeito.

Porém, chama a atenção da Ministra que tem a tutela da Tauromaquia e que a ela se referiu com desdém, demonstrando que a tourada não é de seu agrado. E isso é grave, alguém ter o poder político sobre algo que não gosta, o que quer dizer que irá contrariar todos os assuntos taurinos e que necessitem do seu parecer ou consentimento.

Portanto, poderemos chegar à conclusão que o Primeiro-Ministro entregou a Cultura a quem não a tenciona defender, nomeadamente a Cultura Tradicional e Popular como é a Tauromaquia.

Talvez porque a remodelação ministerial foi feita um pouco à pressa – porque o Primeiro-Ministro no dia anterior garantiu que não haveria substituição de Ministros – o que acontece é que houve alguma ligeireza ao nomear para a Cultura quem não a defende devidamente, quem não tem abrangência cultural suficiente para exercer o cargo.

“A civilização é um produto da cultura, e é tudo menos instantânea. É produto de séculos.” – Observou e muito bem Henrique Monteiro no seu artigo.

Instantânea – pareceu-me a mim – foi a ligeireza na nomeação de Graça Fonseca  para Ministra. Alguém que deveria ser protectora e não destruidora da cultura.

Manuel Peralta Godinho e Cunha

Artigo “Touradas e Civilização” (Expresso):

https://leitor.expresso.pt/diario/quarta-2/html/caderno1/opiniao/Touradas-e-civilizacao?fbclid=IwAR1eVIskYP_eNTe-NArDFZqLq6USs2Jnk9C1vK-HW1GhadABGKfcxCPljQ0